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Fonte: G1-Noticias

Pesquisa mostra assédio sobre as crianças em rótulos de alimentos processados
Colocado por: 2019-11-11 15:02:13
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“Estamos condenando nossas futuras gerações a terem uma expectativa de vida menor do que a nossa”.

A declaração acima não é de um ambientalista, não está inserida no contexto sobre mudanças climáticas ou sobre o Antropoceno, não tem a ver com o fato de estarmos a pouco mais de dois anos do cinquentenário da primeira Conferência do Clima que ocorreu em Estocolmo em 1972.

A declaração acima é do chef de cozinha Jamie Oliver, abre o documentário “Muito além do peso”, realização da Maria Farinha Filmes e Instituto Alana em 2013, e diz respeito à obesidade infantil.

Hoje, uma em cada três crianças brasileiras está com sobrepeso (mais peso do que é considerado saudável para a idade ou tamanho), o que significa 35% da população infantil. E 16% estão obesas (quando se tem gordura em excesso no corpo). Há trinta anos, havia 4% de crianças obesas e 15% com sobrepeso. Houve, portanto, um salto de mais de vinte pontos percentuais.

Uma em cada três crianças é considerada subnutrida ou com sobrepeso antes dos 5 anos

A obesidade ou o sobrepeso causam doenças. E são doenças graves, daí a declaração dramática, porém muito real, de Jamie Oliver. Para reverter este processo é preciso mudar paradigmas e, infelizmente, o que se percebe é que as classes sociais mais abastadas já estão cientes disso. Não é o caso de pessoas que vivem com pouco dinheiro e se deixam levar pela aparência dos rótulos bonitos e gostos marcantes – salgado ou doce – de produtos vendidos às pencas, por baixo preço, nos supermercados. Sabe-se que os alimentos processados contendo elevado teor de sódio, açúcar, são fatais para o aumento de peso.

Neste sentido, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) junto com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em agosto e divulgada no início deste mês dá uma excelente ajuda para se refletir a respeito. Os pesquisadores investigaram quais os alimentos e bebidas ultra processados preferidos pelo público infantil, de diferentes níveis socioeconômicos, e as estratégias de marketing que os estimulam a consumir tais produtos.

Frutas não aparecem na lista de alimentos preferidos das crianças — Foto: Pixabay/DivulgaçãoFrutas não aparecem na lista de alimentos preferidos das crianças — Foto: Pixabay/Divulgação

Frutas não aparecem na lista de alimentos preferidos das crianças — Foto: Pixabay/Divulgação

“De acordo com as 69 crianças participantes da pesquisa, para alimentos e bebidas ultra processados chamarem a atenção delas, eles devem ter o produto em evidência (imagem de um biscoito recheado, por exemplo), cores vibrantes e chamativas, apresentar informações sobre sabor, além de personagens nas embalagens e brindes que eles possam, muitas vezes, colecionar”, diz o texto que apresenta a pesquisa no site do Idec.

“Continuamos vendo a comercialização de alimentos ultra processados com embalagens especiais para crianças, associados a brinquedos e brindes. As crianças são muito suscetíveis e sensíveis ao marketing. Enquanto isso não mudar, fica muito difícil melhorar o estado nutricional das crianças e promover uma alimentação saudável entre elas” – Cristina Albuquerque, chefe de saúde do Unicef, no site do Idec.

Quando entrevistadas para a pesquisa, as crianças listaram suas preferências como lanche escolar: biscoitos e bolachas (71%); bolos e bolinhos (58%); salgadinhos (42%); pães e bisnaguinhas (36%); sucos industrializados (90%); bebidas lácteas e achocolatados (57%); iogurtes ultra processados (28%). Reparem que as frutas não entraram nesta lista. Segundo os pesquisadores, diversos fatores podem estar relacionados a este comportamento:

“Essa exclusão das frutas pode estar atrelada a preços mais elevados; menor disponibilidade nos ambientes alimentares, conveniência, paladar, percepção de que a criança gosta mais de produtos doces, fáceis de serem consumidos, que na maior parte das vezes acabam sendo produtos não saudáveis”, comenta no texto de apresentação da pesquisa Laís Amaral, nutricionista e pesquisadora do Idec.

Além disso, 83% dos pais entrevistados afirmaram que as crianças consomem diariamente alimentos e bebidas industrializados. E, para 51%, a opinião das crianças na escolha do alimento e da bebida é muito importante.

Obesidade infantil — Foto: Roos Koole / ANP MAG / ANP/AFPObesidade infantil — Foto: Roos Koole / ANP MAG / ANP/AFP

Obesidade infantil — Foto: Roos Koole / ANP MAG / ANP/AFP

A primeira vez em que um estudo demonstrou que o consumo cada vez maior de alimentos ultra processados, por si só, estava relacionado à elevação do peso ou apenas favoreceria as doenças provocadas pela obesidade, por conterem quantidades exageradas de sódio e de outros nutrientes, foi em maio deste ano. O estudo foi divulgado na revista Cell Metabolism, como descrito no site da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica.

“Nosso achado é que, de fato, as pessoas acabam comendo mais e, consequentemente, consumindo mais calorias por dia — precisamente 508 calorias a mais, em média — quando estão diante de alimentos ultra processados. Portanto, há algo nesses alimentos que levaria as pessoas a comerem em excesso, o que ainda não conseguimos explicar”, relatou o médico Kevin Hall, um dos autores desse estudo.

O estudo publicado na Cell Metabolism foi realizado durante 15 dias. E os voluntários, no fim deste prazo, tinham engordado 0,9 quilo comendo alimentos processados.

Em entrevista ao site Hufpostbrasil, Laís Amaral tira dos ombros do consumidor a maior culpa na hora de escolher a compra dos ultra processados. De fato, a oferta é grande, a praticidade maior ainda. Amaral aconselha os pais a terem atenção à parte traseira do rótulo, onde normalmente está publicada uma tabela nutricional e a lista de ingredientes. E adverte: há formas de tentar ludibriar o consumidor, muitas formas.

Já existe um projeto, que ainda está em avaliação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para um novo modelo de rotulagem nutricional nos produtos processados. Está aberto à consulta pública e prevê, entre outras coisas, que os rótulos tragam informações claras sobre quantidade excessivas de açúcares, gorduras ou sódio nos produtos.

Mas a mudança que realmente pode fazer diferença é a de comportamento. E ela precisa ser ensinada na escola. O mesmo lugar onde as crianças aprendem álgebra, geografia e história deveria dar também aulas sobre a boa nutrição. Desembalar menos, descascar mais, é uma regrinha básica e possível. Muitas vezes, inclusive, com ganhos substanciais para o orçamento doméstico, já que se simplifica o cardápio, embora ofereça um leque amplo de possibilidades de se descobrir legumes, raízes e frutas de cada estação.

Merenda na escola pública do DF  — Foto: Andre Borges/Agência BrasíliaMerenda na escola pública do DF  — Foto: Andre Borges/Agência Brasília

Merenda na escola pública do DF — Foto: Andre Borges/Agência Brasília

Uma cena do documentário “Muito além do peso” mostra como há muito o que fazer para se provocar uma mudança. A equipe de filmagem, ancorada em Careiro da Várzea – município pobre da região metropolitana do estado do Amazonas, 95% construído sobre as águas – flagra a chegada de um imenso barco, um supermercado flutuante com produtos alimentícios da Nestlé. Pais e filhos são os maiores consumidores. A câmera acompanha a mãe de um bebê de seis meses, já obeso, que conta a dieta do filho:

“Três mamadeiras de leite em pó; três mamadeiras de leite com arrozinho e mama uma vez no peito”.

A imensidão de natureza que a cerca, com ofertas de produtos que serviam aos nossos antepassados como alimento, não serve para estimular a mulher a dar seu próprio leite ao pequeno. E ela aprendeu com a mãe que dar leite de lata é mais nutritivo. O desmame precoce é um dos principais pontos que desequilibra a saúde humana desde cedo.

Uma sociedade progressista, que se preocupa com o desenvolvimento sustentável, precisa olhar para isso com atenção redobrada.


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